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Foram duas semanas de impasses e negociações intensas. Ontem, apesar de tudo desmontado ao redor, a plenária diplomática se manteve atuante e, após uma virada exaustiva, que encerrou por volta das 8h da manhã de hoje, 22, os cerca de duzentos países presentes na COP30 conseguiram fechar um acordo costurado na madrugada, intitulado “Mutirão Global: unindo a humanidade em uma mobilização global contra a mudança climática”, apresentado no início desta tarde de sábado.

O texto não menciona os combustíveis fósseis e sequer aborda o apelo do presidente Lula e de mais de oitenta países por um roteiro sobre fósseis e desmatamento. Mas inventou o Acelerador Global de Implementação e a Missão Belém para 1,5, de modo que os países colaborem, cada qual com seus próprios métodos, para avançar na definição de como sair dos combustíveis fósseis, seguindo o caminho indicado pela COP em Dubai em 2023, e agilizar a implementação do Acordo de Paris, celebrado há dez anos. Uma saída que remete a Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

O documento oferece novas chances para discutir a redução das emissões e propõe triplicar os fundos para adaptação, prevendo US$ 120 bilhões em 2035, e o compromisso de tornar o financiamento climático mais previsível, acessível e compatível com as necessidades dos países vulneráveis. Avança em adaptação, financiamento e regras de transparência, e deixa para 2026 parte das decisões que deveriam ter sido tomadas em Belém. Sublinha a importância da equidade, dos direitos humanos e do multilateralismo, ao mesmo tempo em que reconhece os progressos feitos, mas também as lacunas significativas em ambição e financiamento. Os Estados Unidos não participaram.

A escolha do embaixador presidente da COP30, André Corrêa do Lago, revelou-se a mais acertada. Conquistou todo mundo. “Sabemos que alguns de vocês tinham ambições maiores; eu sei que a sociedade civil exigirá que façamos mais para combater as mudanças climáticas. Quero reiterar que tentarei não decepcioná-los durante minha presidência. Criarei dois roteiros: um para deter e reverter o desmatamento e outro para a transição de forma justa e ordenada. Eles serão baseados na ciência e inclusivos, no espírito da mudança”, declarou hoje na sessão plenária, observando que o trabalho sobre combustíveis fósseis se beneficiará da Conferência na Colômbia, em abril de 2026. Ele foi longamente aplaudido pelas delegações estrangeiras.

Pela primeira vez em um texto oficial da COP, o termo “pessoas de ascendência africana” aparece de forma explícita, marcando um reconhecimento inédito da ONU no contexto climático. O documento destaca que esse grupo, ao lado de povos indígenas, comunidades locais, mulheres, jovens e outros atores, desempenha papel essencial no avanço das metas do Acordo de Paris. E que a participação desses segmentos é decisiva para ampliar a ambição climática e apoiar a implementação das ações globais.

Cliquem aqui para ler o documento na íntegra:

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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