0

A Comissão da
Verdade dos Jornalistas do Pará ouviu, em sua segunda audiência pública, os
jornalistas Manoel Bulcão, Manuel Dutra e Carlos Boução.
Depoimentos
emocionados e emocionantes de uma história que ainda será contada a partir dos
fragmentos que se recolhe. Testemunhos oculares de um tempo de trevas em que a
liberdade virou sonho e esperança.
Membro da Academia
Paraense de Jornalismo, Manoel Bulcão, hoje aos 80, começou a carreira na Folha
do Norte, em 1953, onde permaneceu até 1968. Durante a ditadura, integrava a
lista de inimigos do regime militar. Quando veio o AI-5, foi proibido até de
sair da redação.
Considerado
subversivo, foi preso seis vezes e respondeu a três processos. Nem sabia por
que, mas era só um general presidente da República vir ao Pará, lá ele ia preso.
Talvez por medida de segurança, contou. Teve um dia em que, por falta de
viatura, precisou desfilar a pé,
preso, na via pública, a caminho do quartel. Na rua, sua mulher testemunhou a
cena, evidentemente, muito sofrida.
O relato de Bulcão
teve momentos surreais: “Houve uma época
em que eu, Raimundo Jinkings, Rui Barata, Pedro Galvão, entre outros, precisávamos
ir todo mês a Fortaleza, para nos defender em um dos processos. E ainda pagávamos
dos próprios bolsos.
” (!) Ou, ainda, quando rememorou o dia em que, com o
quartel – que era onde funciona hoje a Casa das Onze Janelas – cheio de
jornalistas presos numa sala, começaram uma seresta que só acabou quando o
comandante, incomodado com o barulho, quis saber que esbórnia era aquela e mandou acabar na hora.
Autor de artigos
que defendiam a revolução cubana – Bulcão esteve na ilha de Fidel entre 1961 e
1962 e recolheu material que teria virado livro se, em 1971, sua agência de
propaganda não tivesse sido invadida -, ele mesmo teve que dar um fim a esses
textos, para se livrar da perseguição, que já não aguentava.
Com os olhos
marejados pela emoção das lembranças, Bulcão encerrou seu depoimento afirmando
que se questiona se valeu a pena tanto sofrimento, porque vê muita gente que,
na época da ditadura militar, pareceu ter feito um investimento futuro, tão bem
essas pessoas estão hoje. Momento forte que repercutiu fundo nos presentes.
Manuel Dutra, jornalista,
professor
 da UFPA e UFOPA,
mestre em Planejamento do Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido e doutor
em Ciências Socioambientais pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA,
estudou jornalismo em Recife, na Universidade Católica de Pernambuco, onde,
ainda como membro do Diretório Acadêmico, sentiu o peso do AI-5 no dia em que o
muro em frente à Faculdade amanheceu pichado com os nomes dos considerados
subversivos, o seu inclusive. Como sabia que a ameaça era para valer, decidiu dar
um tempo
em Santarém, sua terra natal, onde começou a trabalhar na Rádio
Rural, dirigida pelos padres da igreja católica. Era 1969.
Em Santarém, Dutra foi
chamado duas vezes ao Comando Militar, mas não foi preso, embora também tenha
sido interrogado e sob a justificativa de que às 6h da manhã a rádio transmitia
programação obscena. Como era um padre que rezava a Ave Maria, impossível tal
conduta. A explicação: o zeloso militar achava que, no trecho “bendito é o
fruto do vosso ventre”, “ventre” era um palavrão(!).
Retornou a Recife e
trabalhou no Diário de Pernambuco e na Agência Nacional, que era a antiga agência
de notícias do governo federal. Retornou em 1972, formado, para Santarém, e
retomou suas atividades na Rádio Rural, onde aprendeu na própria pele a ter
mais medo dos donos de garimpo do que dos militares. Eles mandavam matar e ficava por isso mesmo. Lei do terror, do
silêncio e da impunidade.
Carlos Boução,
jornalista formado forjado no seio da
Sociedade Paraense de Defesa
dos Direitos Humanos
, onde começou como
distribuidor e testemunhou os momentos dramáticos da invasão da gráfica Suyá,
corroborou o depoimento do jornalista Paulo Roberto Ferreira, prestado na
primeira audiência da Comissão da Verdade dos Jornalistas do Pará.
 
Naqueles anos de chumbo, lavradores,
profissionais liberais, funcionários públicos, estudantes, religiosos,
operários da construção civil e gráficos ousaram criar uma
Ong, a SDDH, cujo nome do jornal já dizia a que vinha: “Resistência”, uma temeridade. Era o tempo
das lutas pela anistia aos presos políticos, de liberdade de expressão e
pensamento. Tempo de discutir as propostas de
Assembléia Nacional Constituinte, que só viria dez anos depois. Era também o tempo em que o
governo
militar controlava a vida de todo mundo.
João Marques, o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Pará, foi um dos fundadores do Resistência. Raimundo
José Pinto, Paulo Roberto Ferreira, Nélio Palheta, Sérgio Palmquist, João
Vital, Agenor Garcia, Rosaly Brito, Regina Lima, Ana Célia Pinheiro, José
Rangel, Sérgio Bastos e Pedro Estevam da Rocha Pomar (que usava o codinome
Marcos Soares), entre outros jornalistas que atuavam na grande imprensa,
escreviam regularmente ou colaboravam eventualmente com o jornal. Em São Luís, o
correspondente era Walter Rodrigues. Em São Paulo, Benedito Carvalho. Lúcio Flávio Pinto
escrevia artigos especiais.
Raimundo Jinkings foi
vice-presidente da SDDH e escrevia, com freq
uência,
artigos para o
Resistência.
O jornal fazia ampla cobertura da prisão dos padres Aristides Camio e Francisco Gouriou, que
junt
o com 13 posseiros do Araguaia foram
acusados de emboscar e matar o funcionário de uma fazenda em São Geraldo do
Araguaia, que depois se descobriu era um pistoleiro.
   Uma verdadeira ação de guerra
foi montada no interrogatório dos padres e trabalhadores rurais. A gráfica do
jornal publicava panfletos encomendados pelas entidades católicas que
repudiavam a prisão dos padres (a igreja progressista colocada no banco dos
réus). E os sindicatos e o movimento nacional pela reforma agrária se
solidarizavam com os pequenos lavradores presos e suas famílias, que exigiam
justiça.
Dois dias antes do Círio de Nazaré, a maior manifestação religiosa
do Brasil, a Polícia Federal invadiu a gráfica do jornal e a sede da Comissão
Pastoral da Terra, em Belém, a fim de recolher materia
l que seria distribuído no dia da
romaria
.
Na Suyá, da SDDH, o editor do Resistência, Luiz Maklouf Carvalho, foi
espancado e ameaçado de fuzilamento.
Na época, Carlos
Boução
distribuía o jornal e foi
algemado, junto com o repórter João Vital e o vice-presidente da SDDH, Daniel
Veiga
, Alberdan Batista, vice-presidente
do Sindicato dos gráficos, e o impressor Arlindo Rodrigues. O jornalista Paulo
Roberto Ferreira, gerente da gráfica e diretor do jornal,
foi preso e levado para depor na sede da PF.
Todos foram enquadrados na Lei de
Segurança Nacional
, o inquérito foi arquivado, mas as perseguições continuaram. Em 1983, a falta de dinheiro e as divergências
no seio da SDDH
levaram o Resistência a um hiato de um ano
na circulação. E
m 1984, na véspera da visita de Tancredo Neves a Belém, então
candidato a presidente da República, em pleito indireto, um incêndio
na madrugada destruiu as instalações da gráfica que editava o
jornal. Daí em diante a publicação foi se reduzindo até desaparecer por completo
como impresso e hoje só é veiculada na internet.
Carlos Boução apontou o grande papel do fotógrafo
Miguel Chikaoka na articulação entre os artistas e os dirigentes da SDDH e do
Resistência.
A próxima audiência pública está marcada para o dia 30 de maio de 2013. A Comissão da Verdade dos Jornalistas do Pará é integrada pelos jornalistas Emanuel Villaça, José Maria Pedroso (Piteira), Priscilla Amaral, Luciana Kellen e Franssinete Florenzano, todos membros do Sindicato dos Jornalistas do Pará, presidido pela jornalista Sheila Faro.
Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

A liberdade, irmã siamesa da Democracia

Anterior

Adeus a Ney Sardinha

Próximo

Você pode gostar

Comentários